15.3.10

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… ainda sobre o dia de hoje

 © I.P. - Não se autoriza a cópia, distribuição ou transmissão desta imagem


Foi um dia de manhã, em Maio, que me telefonaram a perguntar se aceitava um emprego a cerca de 100 km de casa. Pensei durante todo o dia e aceitei pois sentia que tinha de dar um rumo à minha vida e ser independente.

O meu desejo de independência resultava essencialmente da maneira de ser do meu pai. Sou a mais nova de 8 (3 rapazes, 5 raparigas). Vim fora de tempo, quando já nem passava provavelmente pela cabeça dos meus pais ter mais filhos. O meu pai já tinha 53 anos e a minha mãe 41 e muitas preocupações pela frente. Penso que o meu pai talvez já não se sentisse preparado para ser pai de mais um bebé com essa idade. Já tinha os 5 mais velhos criados e fora de casa e as 2 mais novas com idade suficiente para ajudarem a minha mãe e portanto dedicou-se a seguir os seus sonhos e ideais, entre eles escrever um romance.

Representava para mim a figura da autoridade e quando fazia alguma asneira que ele visse chamava-me para a sala e repreendia-me calmamente com um discurso demorado, ele no sofá de um lado e eu no do doutro. tinha regras muito rígidas e muito próprias que, com a maioridade me iam sendo cada vez mais difíceis de aceitar. Não me lembro de ser particularmente afectivo, excepto na hora de deitar quando me vinha fazer uma festa na cabeça e dar um beijo. Mas olhando as fotografias vejo sempre o seu sorriso e os seus olhos ternos olhando para mim e quase nunca para a câmara.

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Reformou-se cedo e passava os seus dias na sala, onde tinha o escritório, a escrever. Quando não escrevia estava a arranjar coisas e era nessas alturas que convivia com ele. Aprendi desde pequena a arranjar estores, a mudar torneiras, a fazer derivações eléctricas, a arranjar mecanismos de relógios, a montar estantes a partir de meia dúzia de tábuas, a perceber a lógica dos mecanismos. Ensinou-me também o básico de mecânica automóvel, inclusive mudar pneus. Também me ensinou a guiar e principalmente a estacionar e fazer ponto de embraiagem (dizem que meto o carro em qualquer buraco) e a adorar carros.

Aprendi também a jogar xadrez e a raciocinar sobre as jogadas, minhas e dos outros. Lembro-me de uma vez, de férias no Algarve, termos improvisado um xadrez com caricas e rolhas. Em toda a minha vida só lhe ganhei duas vezes. A última vez que jogámos foi um mês antes de ele morrer e apesar de já não ter o raciocínio de antes estivemos quase 2 horas “à briga”.

Foi nestes momentos em conjunto que me ensinou os princípios da vida, a honestidade, a integridade, a justiça, os valores a preservar, a lógica, o raciocínio e que aprendi a ser poupada, a reciclar e reaproveitar.

Quando saí de casa a minha avó morreu um mês depois e o meu pai começou a manifestar mais visivelmente a doença que silenciosamente o assolava há alguns anos: Alzeimer. Todos os fins-de-semana ia a casa com o meu marido (ainda namorado na altura) e fazia grandes passeios com ele de carro, para que visse as paisagens que tanto gostava e guiasse menos de semana. Levou-me ao altar com um ar orgulhoso e tratou até ao fim o genro como um filho (e ele como um pai).

No dia 29 de Fevereiro de 2008 encontrei-o de cama, desorientado, ausente, assustado. Agarrava na minha mão e punha-a sobre o peito. Chamei médico e ambulância. Lembro-me de ter passado 3 sinais vermelhos. Vi-o no dia que foi internado e duas vezes no fim-de-semana seguinte e em ambos os fins-de-semana fiz os 100km de volta para casa certa que não o voltaria a ver. Na sexta-feira dia 14 de Março de 2008 já cheguei tarde a casa da minha mãe e a hora de visita já tinha acabado. Nessa noite, por volta da meia-noite, o meu tio passou muito mal e tiveram de lhe trazer oxigénio. Nasceram ambos no mesmo dia, com a diferença de dois anos. No sábado às 8 da manhã ouvi o telefone a tocar e instintivamente soube. Coincidência ou não, tinha morrido à meia-noite.

Não sei se sei lidar com a morte, mas sei que lido de uma maneira diferente de quem me rodeia. Talvez porque a tenha visto logo em muito pequenina e tivesse lidado com ela sozinha, numa altura em que nem se falava em levar crianças a psicólogos. Se foi bom ou mau, me tornou melhor ou pior… não sei. Sei que não entendo o que é o luto mas sinto o calor de um abraço sempre que vejo as fotografias que tenho no meu escritório e revejo os sorrisos. Sei que gosto de relembrar as pessoas seja hoje, seja noutro dia qualquer e que me perdoem aqueles que ficam tristes quando me esqueço de datas específicas para relembrar ou não vou a cerimónias específicas. Sei que escrevo e posto em datas específicas mais para os outros do que para mim. Sei que as únicas duas vezes que chorei por quem partiu foram abraçada à minha irmã. E sei principalmente que sinto falta da festa na cabeça ao deitar…

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